21.3.17

Equinócio da Primavera


Disse que em breve escreveria sobre ti.
É tarde para este texto, não muda nada, não é suposto mudar, mas era essencial.
Pela primeira vez vou escrever inteiramente sobre ti e és todo tu e um bocado de mim aqui, sem outros sentimentos ou pedaços de pessoas à mistura. Este texto é meu mas pertence-te inteiramente e espero que enquanto lês isto, primeiro percebas que é para ti, e segundo o faças com um sorriso na cara e um coração carregado de carinho.

Antes de mais, desculpa por ter desistido de nós.
Lutei muito por nós, lutei até ficar emocionalmente exausta, até as lagrimas que tanto ardiam quando me escorriam pela cara pararem de cair, até os gritos tão cavos que emitia deixarem de se ouvir, até perceber que discussões não eram a resolução do nosso problema nem parte dele. Desisti de nós quando o corpo que me atacava era o mesmo que me abrigava, quando o teu abraço já não significava proteção e as palavras que outrora me aqueciam mais tarde só me congelaram.
Mas quero pedir desculpa porque sei que desistir também foi um pensamento teu e não o fizeste. Porque sei que desistir de mim nunca foi algo concebivel para ti mesmo que isso tenha significado desistires de ti.


Mas quero que saibas que não nos deixei por não te amar, mas porque cada segundo a mais que ficava, era um pedaço de mim que ia. E posso dizer que deixar-te, amando-te foi uma das piores dores que me fizeste passar. Foi escolher ser forte, ou sermos os dois fracos. Foi uma decisão completamente racional no meio de toda a emoção que estava a viver.
Desculpa ter desistido de nós, e desculpo-me por ter desistido de mim também.


Perdoa-me pelos erros que cometi.
Cometi erros que todos nós cometemos numa relação mas mesmo assim, desculpa. Não retiram a dor que te causei por serem comuns. E causar-te dor doeu-me tanto... Podia mencionar aqui alguns mas não há necessidade, tu sabes quais foram pelas vezes que os descreveste com frieza e eu também sei e acredita que muitas vezes me martirizei por eles.
Desculpa pelas coisas que não fiz por medos e receios.

Também cometeste erros, como um humano. Muitas vezes não me senti amparada e acho que o fim começou quando duvidei do teu amor por mim. Não consegui segurar as pontas quando tudo se tornou uma bola que enrolava todas as nossas partes boas e as levava lentamente para o passado. Soube que acabou quando deixaste de me agarrar as mãos ou o teu olhar era oco e sem brilho. Quando ter-te à minha frente me fazia ter saudades de ti e voltar para ti não podia ser uma opção.

O beijo que te dei e que soube que era o último tirou-me o ar dos pulmões e o sangue do corpo, era apenas o vazio de uma alma a beijar o fundo da outra sem qualquer esperanças de futuro. Penso que foi o beijo mais carinhoso e 'toma bem conta de ti' que alguma vez te dei, foi um beijo que soube a despedida e apesar de não ter largado nenhuma lágrima posso garantir-te que chorei por dentro. Vou para sempre guarda-lo na memória pois é uma das melhores recordações do nosso fim. Vou guardar-nos da melhor maneira possível, seja escrevendo, sonhando ou revivendo.

Mas quero que saibas que não nos deixei por não te amar mas porque ficar iria destruir tudo bom que uma vez construímos, iríamos ficar com uma visão um do outro completamente distorcida da realidade. Iríamos desejar nunca termos existido e a última coisa que quero é que te arrependas de nós.

Espero que mesmo sem este pedido de desculpas já me tenhas perdoado, não por mim mas por ti, para puderes seguir em frente apesar de me teres deixado para trás e que apenas olhes por cima do ombro para recordar tudo com um grande sorriso.
Perdoar alguém traz nos paz, traz nos calma. Não espero que esqueças, eu também não esqueço. Mas já te perdoei, já nos perdoei. Quero que estejas bem neste momento, quero que fiques sempre bem, que nunca percas esse teu sorriso discreto mas que me fazia derreter sempre que o via. Espero que encontres alguém que te dê sempre valor e que te dê tanto como o que recebe pois tu és um homem de dar. Espero que quando não estiveres feliz tenhas coragem e força para recomeçar noutro lado, espero que saibas como sair sempre por cima e que quando tiveres que sair por baixo saibas levantar-te logo depois. Sei que por vezes fomos pouco e outras vezes fomos muito, mas sempre que fomos, fomos a sério, fomos sentimento e fomos verdade. Foste uma das alturas mais felizes da minha vida e por isso estou eternamente grata.

Obrigada por nunca teres desistido de mim, obrigada por me teres abraçado quando o meu mundo estava a ruir e hoje entendo o poder de um abraço quando o teu me faz tanta falta. Obrigada por teres sido meu amigo no meio da nossa relação e o meu melhor amigo fora dela; por me teres feito rir tantas vezes e quando te disse "não te faço rir amor? então não te faço feliz ..." e depois disse uma piada completamente descabida, obrigada por nesse momento teres dado a gargalhada mais forçadamente verdadeira que alguma vez deste só para eu me sentir melhor; por teres tido coragem de mostrares o teu lado ridículo enquanto eu era ridiculamente louca. Obrigada por teres sido paciente e por um conjunto infindável de coisas mas acima de tudo:
obrigada por me teres amado como eu era, coberta de erros, cheia de defeitos e completamente diferente de ti.



13.3.17

Punctuation: Question mark ?

Sou louca e difícil, nesta mistura sou loucamente difícil e dificilmente louca.

Sou difícil porque tanto quero como no segundo seguinte não, tanto quente tanto frio, tanto direita tanto esquerda, porque tenho um coração que tanto pára como recomeça. - E quem não tem medo de um coração que para e recomeça a qualquer momento? - E sou louca porque tenho imenso amor dentro de mim para dar, tenho amor a escorrer por todos os meus cantos e curvas. Loucamente difícil ou dificilmente louca porque a maior parte deste amor não está disponível para doação, está fechado a mil chaves e sinto que as perdi pelo caminho, as fechaduras estão enferrujadas do tempo que teima em passar.

Gosto da minha solidão, gosto de mim, do meu espaço, de estar comigo e tudo que vem para alterar a minha estabilidade, o meu equilíbrio, a minha rotina, a minha vida deixa-me confusa. Arrumei espaço nas 24 horas que me foram dadas para mim, não arranjei espaço para outro alguém. Se não multiplicam as horas, não podem multiplicar as pessoas... certo?
Tudo o que me altera neste momento, também me afasta e é completamente irracional ter alguém na minha vida que pense sequer em alterá-la, tenho plena noção de que isso não é algo que eu precise. Não agora.

Houve alturas em que senti falta de amor da tua parte e houve outras alturas em que senti falta de carinho da minha. Houve muitas faltas, e acrescentos também. Fomos um copo vazio e cheio até escorrer. Fomos uma balança completamente desequilibrada mas acertada com as nossas próprias medidas. Ninguém nos compreendia e confesso que por vezes me perdi na nossa explicação.
Ainda hoje não nos sei explicar, não nos sei descrever, não nos sei. Mas conheço-nos em separado, conheço-te ponto por ponto e conheço-me virgula por virgula. Conheço-nos em reticências com uma página, um capitulo quem sabe um livro inteiro bastante vago pela frente. E ainda assim apenas trocava o tempo que nos foi dado, não a quantidade de horas, dias, meses juntos mas a altura em que nos foi atribuído.


Mas este texto é sobre mim, ou o pouco que sei de mim, ou o que deveria ser de mim. Não é sobre ti, sobre nós, sobre amor ou outras coisas. É sobre mim cheia de todas essas coisas, sobre pedaços de mim que desconheço, outros que conheço tão bem. Pedaços que quero conhecer e alguns que não devia ter conhecido. É sobre mim com pedaços de ti, de nós, sobre mim com pedaços de perdas, sobre mim com pedaços em falta e outros que acrescentei por necessidade.
Os mais próximos conhecem a minha desconfiança, sabem que pouco me guio pelas palavras e por vezes exijo muito por atitudes e ações. Quão errada posso estar? Até que ponto querer muito, me vai levar a pouco?
Sei o que os outros querem para mim e o que eles acham que eu deveria querer, mas não sei se quero isso, não sei se quero o mesmo que os outros me querem.
Neste momento sinto tudo quando não queria sentir nada. E o pior é que não sei em que consiste este tudo. Por mais que queira gritar tudo o que tenho vindo a sentir não consigo, porque não encontro palavras para descrever. Encontro 713 palavras para um texto e no entanto o que sinto não tem língua, não tem tradução e não tem caracteres.
Não há definição no dicionário para o que sinto porque não existe uma palavra para descrever. São 00:03 da noite, tenho uma caneca de chá e um ponto de interrogação na cabeça. E o pior é que por momentos fui completamente contra a minha desconfiança e acreditei em ti. Se soubesses o quanto odeio não confiar nas pessoas e no entanto o quão arrependida estou de ter acreditado em ti talvez percebesses a nossa situação.

Porém, desde quando é que sou pessoa para ter um ponto de interrogação na cabeça? Eu sou exclamações ou pontos finais, eu sou virgulas ou reticências. Posso ter imensa pontuação dentro de mim mas isto "?" não, isto não sou eu. Mas, e se nunca passei de um ponto de interrogação? e se a minha vida se guia por este simples e essencial caractere da língua universal?