19.11.17

Spring: Tonight I choose to walk away

Estavas encurvado sobre ti mesmo, olhavas para o chão sem ver, com o olhar perdido nas pedras da calçada. As tuas mãos geladas e brancas, características da tua fraca circulação, entrelaçavam-se nervosamente uma na outra. A tua cara não tinha expressão alguma para além de enunciar o fim do teu mundo. Tu sabias o que estava a acontecer.

Com as minhas duas mãos peguei-te na face e inclinei-me sobre ti. O teu olhar atravessava-me, era como se eu não estivesse ali, era transparente para ti. Dei-te um último beijo e os nossos olhos fecharam-se. Não podia chorar. Chorar era um pedido de socorro, era pedir-te que voltasses para as nossas ruínas em busca do que sobrou de nós. Era pedir-te que lutasses quando já não tínhamos armas para a guerra. Era a afirmação de que ainda havia solução e que esta não seria um problema... e era.
E eu não podia permitir que lutasses pelo que fomos. Eu voltaria para ti todas as vezes que me pedisses. 
Quando abriste os olhos eu vi o mar. Neles havia água salgada a fazer brilhar o teu castanho esverdeado que tantas vezes me fez sorrir.

Virei as costas a tremi, senti todos os pedaços estilhaçados do meu corpo a estremecer. Sabia que se desse mais um passo iria acabar contigo, comigo. Estava nas minhas pernas a decisão de pôr um fim ao que vivemos juntos, a nós. 


E por cada passo que dei a seguir, uma lágrima tua caia.
Por cada passo que dei a seguir, desejei não ouvir mais porque os únicos sons emitidos naquela tarde eram o partir do teu coração.
Por cada passo que dei a seguir, desejei ter força para o próximo. 

Todas as pessoas que estava na rua perceberam que eu queria voltar atrás mas o meu pensamento impossibilitava-me. Toda a gente nos viu partir e toda a gente chorou connosco porque éramos almas gémeas no universo errado. E eu juro-te por tudo que eles sofreram connosco.



Mas ninguém sofreu mais do que eu e tu juntos e em separado. Ninguém soube a resolução da equação que vivemos. Nunca ninguém nos soube explicar e vê os anos que já passaram...
Nenhum matemático ou engenheiro na rua souberam explicar-nos como é que duas pessoas certas, viveram o tempo errado e mesmo assim foram tão felizes juntas.


Quando cheguei a casa desfiz-me em lágrimas. Inundei-me por tudo o que fomos e tudo o que não conseguimos ser.
Foste a minha melhor primavera.

15.11.17

p r o m i s e s & S O R R Y

Ás vezes perdoamos quem não merece perdão.

Desiludiste-me. E o pouco que sei é que não te conheço, que nunca te conheci. Que todo o tempo que estivemos juntos foste quem não eras e muito menos quem deverias ser. Apaixonei-me por alguém inexistente porque fizeste com que parecesse real. Tudo o que senti parecia verdadeiro junto do que era falso.



Nunca te prometi nada que não conseguisse cumprir, nunca te prometi sentimentos futuros porque não eram promessas ao meu alcance. Sei que nunca te desiludi porque nunca dei menos do que disse que daria.
Não prometeste atitudes, prometeste palavras e como é costume dizer "essas o vento leva". Durante todo o nosso tempo juntos construíste uma maneira de nos destruir e neste fim, conseguiste. Acabaste connosco sem olhar para trás e de uma maneira muito pouco digna. Não houve respeito, não houve maturidade e não houve sinceridade acima de tudo.





Hoje o que mais me custa é ter de duvidar do que foste, do que fomos, do que fui contigo. Dói-me atirar o que fomos para trás das costas enquanto questiono se realmente me amaste. E acredita que me custa imenso duvidar do que um dia foi uma certeza.
Sei o que estás a pensar... parece injusto duvidar de tudo o que fizeste por mim porque terminamos, mas não é só pelo nosso fim, é pela forma como apareceu, pela forma como agiste quando este chegou.

Ás vezes perdoamos quem nunca nos pediu perdão.

Percebi que tinha de ultrapassar mesmo sem respostas, tinha que deixar de fazer perguntas. Só me restava perdoar por mim. E admito que ainda não te perdoei totalmente, porque o que fizeste não foi de alguém que eu jurei conhecer.
Mas eu vou perdoar mesmo sem um pedido de desculpas porque devo isso a mim própria. Porque não perdoar era errar comigo mesma.

Não precisarei de um pedido de desculpas mais à frente. Conheço o ser humano o suficiente para saber que por vezes erramos e não deixamos de crescer por não termos pedido perdão. Porque sei que por vezes pedir desculpa requer coragem de ter que olhar nos olhos que choraram por nossa causa, olhar para a pessoa que magoamos. 

O nosso fim foi algo invulgar, não começou e não acabou. Apenas chegou e ambos soubemos que pouco ou nada haveria a fazer. Tudo o que "tentamos" foi por descargo de consciência e respeito pelo passado. Somos mais felizes em separado.