27.8.12

Perfeito Desconhecido - VIII


Nunca mais vi o Tiago desde então, fui à praia vários dias e nem sinal dele, esqueci-o. Não pretendia encontrar mais chatices nenhumas na minha vida e eu esperava que ele desistisse porque apesar de tudo ele não me conhecia, era só mais um daqueles idiotas que beijavam quem queriam, quando queriam e eu, definitivamente, não era das que deixavam isso acontecer. Eu não vendia os beijos, mas eles acabavam sempre por ser roubados, fosse por quem fosse. O Josh era diferente. Por isso, não me era primitivo tê-lo, por mais que eu o desejasse. Estávamos a caminho de Lisboa e entretanto ele ligou-me e o meu coração acelerou mal ouviu a sua melodiosa e doce voz, só esperava que ele não reparasse nisso.

*- Olá ? - gaguejei.
- Olá Raquel ! Estás bem ?
- Sim, sim e tu ? - interroguei com uma voz um pouco mais calma, mas ainda assim nervosa.
- Também. Quando chegares a Lisboa podemos ir dar uma volta ? Se não te inco... - interrompi-o.
- Sim ! Claro ! Chego por volta de uma hora. - espero não ter parecido muito ansiosa.
 Reparei no salto que a Inês deu com a minha resposta e ri-me.
- Então até logo. - e desligou*

Raquel: Pai, podes deixar-me no parque se faz favor ?
Daniel: Desculpa meu amor, não estava atento. Vais sozinha ? - perguntou olhando-me desconfiado pelo espelho do carro.
Raquel: Não ... - Rezei para que não me pergunta-se nada mais, mas foi em vão.
Daniel: Vais com quem então ? - perguntou ainda mais desconfiado, apercebi-me então que tinha chegado a pior parte da conversa.
Raquel: Vou ter com o Joshua da minha turma.
Daniel:  Não estou a ver quem é, hum...
Raquel: Talvez o conheças por Josh.
Daniel: Aquele rapaz famoso, o ... repete-la.
Raquel: É Josh, pai. - disse amuada.
Daniel: Hum, estás interessada nele ?

As minhas bochechas ficaram encarnadas e a não saia uma unica palavra da minha boca, até que me obriguei a responder algo de jeito.

Raquel: Somos só amigos ! - gritei-lhe.
Rafael: Se bem que ela queria mais. - gracejou.
Raquel: Cala-te idiota ! Queres que mande a tua namorada pela janela fora é ? - ameacei.
Inês: Hey !
Raquel: Oh calem-se todos. - Chega-mos ao parque, o meu pai estacionou e disse para não me demorar muito. - Pai, eu vou de mota com o Josh para casa.
Daniel: Sabes que a tua mãe não gosta de motas e fica em pânico só de pensar em ti numa. - disse ele, com razão.
Raquel: Ela não tem de saber. - fiz um olhar brilhante à espera que o meu pai não resistisse.
Rafael: Eu conto-lhe. - sorriu-me.

Dei meia volta ao carro e fiz-lhe sinal para abrir a janela.

Raquel: Também lhe posso contar das negativas que tiveste, ou melhor, quando conduziste bêbado lembras-te ? - sussurrei-lhe ao ouvido. - espera, ainda há mais... daquela vez que tu ... - interrompeu-me.
Rafael: Pronto, okay. - respondeu amuado.

Pisquei-lhe o olho como quem diz "Boa escolha" .
Cheguei ao parque e obviamente ele já lá estava, era sempre tão pontual. Encontrávamo-nos sempre no parque e, mesmo que chegasse na hora certa, ele fazia-me sentir como se estivesse atrasada. Estava mais bonito do que antes, era sempre mais bonito que antes, sempre. Cumprimentei-o, ele disse que tinha saudades minhas e depois olhei para o chão e agarrei o meu braço com a mão.

Josh: que se passa ?
Raquel: Não acredito.

Ele pegou no meu queixo com um dedo e levantou-me a cabeça de modo aos meus olhos fitarem os seus, estremeci com o seu toque. Os seus olhos brilhavam intensamente.

Josh: Não é só isso. - e não, não era só isso e ele sabia sempre que havia algo mais e isso enervava-me tanto.
Raquel: Pois não.
Josh: E então ?
Raquel: Cheguei atrasada. - disse embaraçada e voltei a olhar para o chão.
Josh: Não, na verdade eu é que sou bom a ser pontual, ahah. - mexeu no cabelo com uma mão e sorriu.
Raquel: Não, a verdade é que és bom em tudo. - disse vermelha, nunca pensei conseguir dizer tal coisa.
Josh: Preciso de falar contigo, mas como te conheço quero-te pedir para não me interromperes. - sorriu ironicamente.
Raquel: Está bem, eu consigo. - ele riu-se.
Josh: Bem, eu sei que amanhã fazes anos e - interrompi-o.
Raquel: 2 de Abril, ui, que festa. - ele colocou o seu dedo nos meus lábios de modo a calar-me e riu-se.
Josh: Pst... então ? prometeste.
Raquel: Sabes que odeio o meu aniversário, é sinal que estou cada vez mais velha. - murmurei contra o seu dedo.
Josh: Não muda nada. Como estava a dizer ...
Raquel: Mas porque é que temos de falar nisso agora ? acabei de vir do Algarve. - não liguei ao facto de o estar a interromper.
Josh: Se me deixasses acabar ...

Calei-me, bati várias vezes com o pé no chão e olhei para o lado. Ele riu-se tão baixinho que mal se ouviu.

Josh: Amanhã vais conhecer o meu pai. - Sorriu-me com um ar de galã.
Raquel: Mas... porquê ? ... amanhã ? porquê amanhã ? no meu dia de anos ... amanhã ? e porquê ? nós nem somos ... - Uma onda de embaraço evadiu-me, bloqueei e os meus olhos molharam-se, prontos para largar as lágrimas que talvez devessem ter sido derramadas antes e não foram, por isso, por nem ser-mos namorados. Pelo facto de eu o querer tanto e de uma forma tão impossivel. Mas porque é que ele me estava a fazer aquilo ? porquê ? de algum modo ele devia saber que eu gostava dele e não tinha o direito de me relembrar que não devia.
Josh: Namorados ? - manteve-se; manteve aquele olhar translúcido dele; manteve a sua voz melodiosa; manteve o seu ritmo cardíaco; manteve a sua alma intacta como se aquela palavra não fosse sentida para ele. Talvez não fosse.
Raquel: ... Próximos. Muito próximos. - desviei o olhar.

«Ninguém percebe, nunca ninguém percebeu. As saudades que eu desejei ter tuas, o que eu dava por ter saudades de alguém desconhecido e ainda assim, não muda nada. As vezes que a minha cabeça remói o assunto. Eu algures, o meu pai no trabalho que já era cinquenta por cento da vida dele e mais tarde tomou conta dele e tu naquele avião, no avião que no final determinou o teu destino, o teu e de mais umas quantas pessoas. O meu pai nunca tinha dito nada, talvez para com outras pessoas, mas para mim nada. O que era pior, porque só o olhar dele me tornava negro por dentro. Não o culpo, era a mulher que ele amava e ele nunca mais olhou para mim com olhos de ver, nunca fui o suficiente nem nunca me achei tal. E agora, aparece ela, alguém que mexe com algo cá dentro, com algo que eu pensei ter morto há já algum tempo. Alguém que me faz ver o mundo doutra forma e que me cega só com o sorriso, alguém que não posso ter. Alguém que mudou o meu destino. O que era para ser, já não é. Onde eu devia ir, já não vou. O que eu tinha, já não tenho. O ódio por tudo e por todos. E eu escondo-lhe isso, porque eu sei que vai ser pior para ela e de certo modo para mim. O meu pai diz que a minha mãe dizia sempre "Nós temos o que queremos, mas nunca o que precisamos." Eu não compreendo, mas também nunca tive coragem de perguntar. O que precisamos não é o que queremos ? Não sei. Sei que ambos os dois, não merece-mos que isto se prolongue mais.»






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