17.9.12

Perfeito Desconhecido - IX


- Raquel, queres namorar comigo ? - perguntou-me o Josh de repente.
- Desculpa, tenho de ir. - saí a correr do parque.


Estava na praia, era o fim de tarde e o nevoeiro vindo do mar cegava-me. Conseguia ouvir a agitação do mar negro e carregado. A pressão que o ar exercia sobre mim fazia-me sentir o tempo abafado na cara húmida. Os braços, as pernas e os pés estavam despidos. Tinha os cabelos soltos e graciosos a embater na minha cara com a brisa forte e olhava em frente, ainda que não visse nada. Os meus olhos estavam apagados, mas ainda assim, concentrados. A maré chamava-me ao apressar-se a molhar os grãos da areia. e eu comecei a correr, a areia nos meus pés estava fria e naquele instante receei a temperatura da água, seria com certeza o que mais me doeria. O vento fazia-me sentir livre, coloquei-me em posição de mergulho, ainda a correr e entrei. Debaixo de água via as bolhas de ar a subirem, a fugirem. Havia correntes fortes e quando me apercebi, já não via a areia. Nadava com esforço, mas sem esperança nenhuma. Eu estava perdida, a maré estava a ganhar. Eu tinha desistido de mim. A tempestade tinha começado a formar-se. O mar abraçava-me com medo da minha ida e eu lutava, eu nadava, eu esbracejava. O pânico exercia sobre mim medo, os meus braços estavam a começar a ficar cansados. Pensei que a água estivesse mais fria, mas estava estranhamente agradável. Era uma morte dolorosa. Era isso ! Estava a afogar-me. Eu estava a afogar-me. Os meus pulmões não recebiam mais ar e a minha garganta doía-me graças ao sal da água. Montes de memórias passaram-me na cabeça, como se estivesse a reviver o passado apressadamente. Foi então que com os olhos meio fechados vi um corpo grande, um corpo vulto. Os meus olhos tinham desistido de ver, assim como eu tinha desistido de viver. Tentava lutar contra o facto de estar a morrer para saber de quem se tratara, reconheci a cara, já a tinha visto antes, mas onde ?
Acordei num salto e com grito cavo, não saiu qualquer som da minha garganta, eu apenas estava rouca da afiliação. O meu pai, escassos segundos depois apareceu no quarto com um copo de água.

- Querida, estás bem ? - sentia o pânico patente na sua voz.
- Estou pai, estou. - arquejei.
- Bebe água, Kels. - com a voz um pouco mais calma.

Peguei no copo de água e reparei que eu toda tremia.

- Sossega, querida, calma. - fez-me uma festinha na cabeça.
- Estou bem, pai. Não te preocupes. Só preciso de dormir mais um pouco. - Agora, só as minhas mãos tremiam, mas a dor na minha cabeça era insuportável.

O meu pesadelo ainda agora tinha começado. Depois de tanto tempo para adormecer, consegui e passado uma hora o despertador expusou-me da cama para fora bruscamente. Vesti-me um pouco mais arranjada tendo em conta que hoje era o dia. O dia em que ia conhecer o pai do Joshua. Mas nada que umas calças de ganga e uma camisola um pouco mais do que simples não resolvesse. Para o pai do Joshua nem o filho interessava, quanto mais a minha roupa.
Desci as escadas apressadamente, queria sair daquele quarto o mais rapido possivel.
Peguei no casaco e abri a porta devagarosamente para não ser descoberta.

-Querida, e o pequeno-almoço ? - perguntou o meu pai a fingir que lia o jornal.
-Tenho teste de Calculo e ainda queria perguntar umas coisas à Rita. Depois como alguma coisa por lá. - afirmei, apesar de não ser mentira, não era essa a verdadeira razão.
-Está bem. - franziu o sobrolho.
-Não sei quando volto, vou ver se gasto dinheiro, vou ao cinema ou assim. - menti, não era necessário saber de tudo. - beijinhos.

As aulas passaram calmamente, mais do que esperava, o que estranhei. Nem sinal da Inês, mas como ela me ligava todos os dias, decidi esperar o seu telefonema. Estava uma tarde calma e como ainda não estava na hora de ir para o parque parei no caminho e vi umas lojas. Achava a coleção de verão demasiado enfadonha, talvez por não gostar do verão. Faltava uns minutos e fui andando para o parque, desta vez, tinha chegado primeiro. Uns minutos depois o portão rangeu, só podia ser ele.

-Olá. - disse-me uma voz desconhecida para mim.
-Ah, olá. - disse incrédula. - era suposto conhecer-te ?
- Não, assim está perfeito. - disse com um riso abafado de seguida. - És demasiado boneca, não queres vir beber um copo ?
- Não, obrigada. - Estava a começar a aproximar-se, pelo que dei um passo para trás assim que ele se destraiu com alguma coisa.
- Oh , o que faz uma menina tão gostosa como tu aqui, sozinha. - e aproximou-se e agarrou-me.
- Largue-me ! O que julga que está a fazer ?! - gritei o mais alto possivel.
Era impossivel fugir, era com certeza mais rapido do que eu e eu, cairia. Tentei soltar-me mas estava a sufocar naqueles braços enormes que aos poucos começaram a abrir-me a bergilha. Dei-lhe uma cutovelada na barriga e tentei fugir, mas ele apanhou-me pelo braço e puxou-me bruscamente.
- Não ! - arquejei.
- Hey ! - era a sua voz, aquela voz perfeita e de anjo, a minha voz preferida que destinguia mesmo a cem metros de mim.

O Josh deu-lhe um murro e ele soltou-me, naquele mesmo instante, naquele momento de pânico o homem tirou uma faca e o meu pesadelo era de olhos abertos. Foi como se tivesse tudo acontecido em camera lenta. Corri, corri o máximo que pude, mas tarde de mais, já tinha colocado a faca bem dentro da barriga do Joshua e correu. À medida que o Josh caí eu segurei-lhe na cabeça e deitei-o no meu colo. Aquele impacto de momento não me deixava parar de tremer. Tentei procurar o telemóvel, mas os meus olhos estavam cobertos de lágrimas, que me tapavam a visão. Senti o meu mundo a desmoronar naquele preciso momento.

- R-Raquel ? - disse ele mudo.
- Calma, calma, eu vou encontrar, por favor aguenta, por favor, Josh ! - Gritei de pânico.
- Estou, estou por favor, um rapaz foi esfaqueado - custava-me dizer a palavra - no parque de são Luís, venham depressa, por favor. - arquejei.
- Vamos o mais rápido possivel. - afirmou uma voz senhoril.
- Josh, só mais um pouquinho sim ? - tentei sorrir - Fica comigo por favor.
- R-Raquel.
- shiu... shiu... estou aqui.

Ouvi as sirenes e ambulância chegou. Meteu-o numa maca e colocou-o na ambulância. As luzes vermelhas e azuis incandiavam-me os olhos e o barulho todo ainda me fazia chorar mais. Tentei entrar na ambulância.

- Só familiares, pedi-mos desculpa.
- Sou a namorada dele. - disse convicta disso, soube-me bem.


Sem comentários:

Enviar um comentário