3.11.12

Perfeito Desconhecido - X


Parece que foi ontem: ele alto e livre, cabelos soltos e lábios vermelhos como cerejas, magro. Caminhava ao meu lado pelo parque, num ritmo calmo e acolhedor. Camisa e calças de ganga. Um misto de angelidade e rebeldia. As palavras para ele não significavam muito, no entanto articulava-as lentamente. Ele sabia que se não as moldasse bem, uma simples vogal solta me prendia e abria-me um buraco no peito de dor. O riso era contagiante e transmitia esperança.
O que dava para ter esse sorriso neste momento. Agora ele numa cama de hospital imóvel. Montes de pensamentos circulavam na minha cabeça. Porque não abria ele os olhos ? "Tem de descansar e você também, ele está só a dormir" afirmava o médico muito certo do que dizia. Provavelmente eu sabia menos do que o próprio mas como poderia alguém dormir assim ? tão quieto, quase ... morto. Mais uma prova de que ele era um anjo, eu tinha quase a certeza disso.
Estava a sair do hospital e por mais estranho que parecesse, eu necessitava de um apoio. Eu e a Inês já não falávamos, não havia nada a dizer.  Pensei no Tiago, mas porque queria ele ouvir-me depois de tudo ? não tinha mais ninguém, ninguém. Então aí apercebi-me que, aconteça o que acontecer estamos sozinhos na vida. Começou a chover, as gotas na minha cara ardiam, mas eu tinha calor, demasiado calor. Pisei a areia fina, tirei o casaco, as botas e olhei o mar, comecei a correr e mergulhei dentro de água, estava a reviver o sonho, mas agora eu sentia tudo na pele...

- Raquel ! Raquel ! - ouvia uma voz não totalmente desconhecida, mas ainda assim estranha.
- Está cheia de febre, está a tremer por todos os lados e a gritar, está a alucinar ?
- Enrola-a com o teu casaco, aqueci-a e leva-a para o carro. - Disse uma voz desconhecida.
- Joshua, Inês ... Tiago ! Porque foram todos embora ? Porque me deixaram ? - tentei falar, mas estava rouca.
- Estou aqui. - Falou a voz com calma, enrolou-me no casaco e pegou-me ao colo.
- Tiago ? - o cheiro do casaco fazia-me lembrar dele, ainda que a voz estivesse um pouco mais grossa. Os meus olhos teimavam a fechar-se.
- Sim.

Aí fechei os olhos e adormeci, o calor que ele emanava e o bater do seu coração transmitia-me calma.
Acordei numa casa desconhecida, no sofá enrolada numa manta, ainda molhada e com o Tiago a dormir no chão ao pé do sofá onde me encontrava. Tentei levantar-me, mas as minhas pernas estavam fracas de mais para tal, o frio apareceu e agora o ranger dos meus dentes, tinha acordado o Tiago.

- Espera, precisas de alguma coisa ? como estás ?
- Onde estou ? Preciso de ir para o hospital. - Tentei levantar-me, e caí de novo no sofá.
- Mas estás a sentir-te mal ?
- Preciso de ir ver lá uma pessoa.
- Espera, não vais a lado nenhum. Vais tomar um banho de água quente, vestir umas roupas quentes e comer alguma coisa, e se depois melhorares, logo se vê.
- Tenho de ir.
- Olha Raquel, sei que não tenho nada que mandar em ti, mas enquanto estiveres debaixo do meu tecto quem manda sou eu entendidos ? ótimo. Eu levo-te à casa de banho. - e fez cara feia.

Tomei banho, vesti umas calças de fato de treino dele, um camisolão dele também e quando cheguei, estava uma canja na mesa para mim. Sentei-me e fiquei a olhar para ela. Não tinha fome nenhuma.

- Não fui eu que cozinhei, não precisas de ter medo, foi a minha mãe que veio cá trazer, xiu .- e piscou-me o olho.
- Porquê ?
- Porque não tenho jeito para a cozinha.
- Não. Porque me salvaste ? Estava tudo bem. - houve minutos de silêncio.
- Não, a pergunta é: Porque fizeste aquilo ? - disse ele enervado.
- Era a única solução.
- Porra Raquel ! Não era ! - bateu com força na mesa, de modo a que eu desse um salto - Foi um acto de tal cobardia. Que te deu ? Não és cobarde. Pensavas ser o caminho mais fácil ? Ou apenas a facilidade de ter esse destino agradava-te ?
- Não tens nada a ver com isso. - Tentei dizer calmamente.
- Tenho, tenho ! e sabes porquê ? porque és-me especial. porque gosto de ti e se faz favor respeitas isso. Pensaste nas consequências ? Claro que não ! Claro que não ! Pensaste na tua mãe ? no teu pai ? irmãos ? em ti ? Nunca me desiludi tanto. - Foi embora e bateu com a porta do quarto.

Ele tinha razão, mas agora só queria ir para o hospital ver do Josh. Era apenas isso que queria.


Sem comentários:

Enviar um comentário