13.1.13

Perfeito Desconhecido - XII

Passaram vários dias, que pareciam semanas, que na verdade eram meses dentro de mim. Eu tinha-me perdido do mundo e pior: eu tinha perdido o Joshua.
Eu era apenas uma comum mortal, porque tinha eu pensado que ele me quereria algum dia ? O Tiago dizia para não me rebaixar mas eu tinha estado a ser parva o tempo todo, eu deveria saber que iria acontecer um dia, mas ainda não percebi o objetivo do jogo dele. O Jogo da Angelidade.
A dor espalhou-se pelas veias ao longo dos meses e eu sabia que essa doença me tinha domado o corpo todo e o meu pai também, não sabia era de que doença se tratava. Levou-me para casa da minha mãe uns dias, tiveram uma conversa séria e isso uniu-os. A minha tristeza uniu a minha família  e isso no fundo deixava-me um pouquinho mais feliz, parece que valia a pena todo este sofrimento e rancor em relação a ele.
O Tiago fazia de tudo para me alegrar e admito que por momentos poderia conseguir, mas nunca durava muito, obviamente.
- Raquel, espera ! - ouvi a voz do Tiago longe e ofegante. - Saíste agora das aulas ? queres ir jantar comigo ? estou sozinho em casa ... - ele ficou corado e eu também.
- O que queres dizer com isso ?! - Interrompi-o como fazia sempre com o Josh.
- Não, não é nada disso que estás a pensar ! era para vermos um filme e isso ! - Disse atrapalhadamente, obviamente que eu sabia que não era nada, mas vê-lo daquela maneira fazia-me rir. - De que te estás a rir ?
- Devias ter visto a tua cara, sim, eu vou perguntar ao meu pai e depois digo-te alguma coisa, está bem ? - esperava não ter de perguntar, não me apetecia ir, ponto. Diria qualquer coisa do género "falei com o meu pai e ele disse que não, precisa de ajuda em casa" ou "tenho que fazer o jantar, a minha mãe não está" uma desculpa suficientemente credível para ele, apesar de me custar, eu gosto do Tiago, é meu amigo, mas não me apetecia.
- Não precisas. Tomei a liberdade de falar com o teu pai, tens de ir. - e o sorriso de orelha a orelha apareceu.
- Não me apetece, Tiago, desculpa mesmo. - sabia que estas palavras lhe tinham ferido o corpo e mais uma palavra da minha parte e ele sangrava.
- Não perguntei se te apetecia, o teu pai disse que te iria fazer bem e eu também acho. - disse arrogantemente.
- Eu vou, se isso te deixa feliz.
- E a ti também vai deixar.
Estávamos a caminho de casa dele e os meus ossos perfuraram-se com as suas palavras cortantes.
- O que é que ele tinha que eu não tenho ? - Disse seriamente a olhar para a frente no passeio.
- Só não digas o nome dele, por favor. Não digas, não digas... não digas ! - sussurrei e tapei os ouvidos como uma criança de 5 anos.
- Porque ages assim Raquel ? - olhou para mim, mas não deixei o seu olhar penetrar no meu.
- Não digas por favor ... - parei, curvei-me no chão, a dor tinha recomeçado, maldita doença !
- Raquel ? - senti um arrependimento na sua voz.
Eu estava a chorar, ao fim de tantos meses eu estava a chorar. Senti as veias límpidas mas sabia que não duraria muito tempo essa sensação. Era uma sensação desajeitada e vantajosa. A sensação de liberdade.
Naquele instante senti-me livre do Joshua por mais que antigamente isso me doesse tanto.



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