27.1.13

Perfeito Desconhecido - XIII

O meu coração era agora um pássaro que voava para longe. Eu não gostava de pássaros dava-me a sensação de distância e nunca estavam no mesmo sitio. Eu era uma pessoa de crenças e que precisava que me dessem segurança, algo - ou alguém. - que ficasse realmente para sempre.
Pouco tempo o meu pássaro voou, rapidamente lhe cortaram as asas e ele deixou de saber para onde ir. Foi a inesperada chegada da Inês.
Sempre fora amiga dela e pensei que ela me daria amizade de volta, mas ela esqueceu-se.
- Olá Raquel, olá Tiago. O que se passa ? - Como não sabia o que se passava, nunca lhe tinha contado, mas o Joshua tinha ido embora, pensei que esse facto tivesse alguma importância. - Ah o Joshua... - Disse como se me tivesse lindo a mente com os seus olhos sinistros.
As lágrimas secaram e fiquei vazia de novo, aquele nome era proibido, era a regra. Se ela tivesses mostrado interesse por mim, ela saberia-o.
- Vou para casa. - Levantei-me e caminhei.
- Nada dura para sempre Raquel, e tu deverias saber disso !
- O amor verdadeiro dura. - disse o Tiago baixinho. Eu fingi que não ouvi nada do que eles tinham dito e continuei a andar.
- Acreditas mesmo nisso ? Por amor de Deus. - Parei e fiquei espantada com as suas palavras supérfluas.
- Então é isso que sentes pelo meu irmão ? que mais tarde ou mais cedo vai acabar ? que vais ter montes deles depois dele ? - Irritei-me solenemente.
- Não, mas amor dá mais sorrisos que tristezas e agora diz-me: Tiveste isso do Joshua ?
- Não digas o nome dele ! Não mudes de assunto. Tu realmente, alguma vez, o amaste ? Quanto a isso. O amor e continuar mesmo sabendo que vai doer. Não é desistir à primeira oportunidade que se encontra.
- Eu não desisti Raquel.
- Desististe de mim.
Fui-me embora. Ela teria entendido. Mandei uma mensagem ao Tiago a dizer que falava com ele mais tarde,  com mais calma.
Não me tinha apetecido ir jantar. Fui para o meu quarto e por volta da onze horas da noite ganhei coragem e fui ao parque onde outrora o Josh tinha lá estado. Queria sentir de novo aquele pássaro que eu odiava. Sentia-me masoquista. Cheguei lá e uma leve brisa correu pelos meus cabelos. O ar estava húmido e o seu cheiro pairava no imenso escuro da noite, eu sentia-o comigo. Deitei-me no chão e chorei. Chorei forçadamente, queria sangrar para me sentir viva. Mas existia um vazio poderoso dentro de mim, maior que eu. Dentro da minha mala estava uma caneta, andava sempre com ela, não sei porquê. Tirei-a e rasguei um pouco do papel da carta que tinha ido buscar aos correios para a minha mãe e escrevi.

"Querido Joshua,
O nosso sitio parece completamente semelhante. As árvores estão no mesmo sitio, o escorrega continua frio, a madeira continua com farpas e a tua mancha de sangue daquele dia continua no chão ainda que seca e negra. Mas ainda assim o parque está diferente, falta um pouco de nós que deixávamos cá todos os dias. Um pouco de ti e um pouco de mim. Das nossas historias e do nosso amor, ou do meu amor que valia por dois. Sinto saudades tuas e uma vontade enorme de te ter comigo meu anjo. Porque foste embora ? Escrevo aqui na esperança que leias um dia e que voltes para mim. Eu amava-te. Imagino agora um beijo teu na minha boca, um beijo gelado que me fazia sentir mais quente por dentro. Eu amo-te. Espero encontrar-te um dia e que ai fiquemos juntos para sempre, até irmos ter com as estrelas.
Amar-te-ei para sempre."

Coloquei o papel encostado a perna metalizada do banco de madeira de modo a que ninguém visse. Fui para casa e deitei-me na cama com mais um dia passado sem ti.





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