20.7.13

Perfeito Desconhecido - XVII

O tempo poderia não estar muito agradável, ainda assim fui a praia por volta das 18:09 horas, sentei-me na areia e fiquei a deslumbrar o esplêndido oceano, só me ocorriam duas coisas na cabeça: o meu pesadelo que tivera há uns meses atrás e, obviamente,  o Joshua, que estaria provavelmente no outro lado daquele imenso oceano. Um grande sonho desde criança era respirar debaixo de água, talvez isso para mim fosse sinonimo de uma sereia, o símbolo da beleza aquática e humana. Para mim, respirar debaixo de água era algo lindo, lindo como eu gostaria de ser.
Levara comigo o papel do Tiago e, infelizmente, não ganhara ainda coragem para o abrir. Tinha medo que fosse o Joshua - e eu sabia que era ele.
Sentei-me nas rochas ao pé da areia e peguei nos secos grãos pequenos que, escorregavam por entre os dedos e ver aquelas pedrinhas a irem embora com o vento relembravam-me as paixões em geral. Se não tivesse uma plataforma molhada jamais os grãos se colariam, e conforme a plataforma secava, mais as pedras se iam embora. Já o caso do amor não poderia dizer o mesmo, porque corria por esses cantos do mundo que o amor não acabava, então tentei encontrar um exemplo físico do amor, de algo que quando se agarrasse não se soltasse mais e estranhamente não encontrara nenhum. Seria isso o amor ? algo inexistente ? Seria que aquilo que eu sentia pelo Joshua seria apenas paixão ? talvez eu me tenha tornado seca de mais e o Josh tenha voado para longe de mim. Mas por outro lado eu sabia que aquilo que eu sentia nunca iria terminar.
Começaram a aparecer umas nuvens negras e eu abri a folha de papel em mau estado. Algumas palavras eram complicadas de perceber e então, li em voz alta aquela carta.


Querida Raquel,
Talvez eu não esteja a ser justo ao escrever isto aqui depois de tanto tempo, mas de alguma maneira sentia-me culpado por não o fazer. 
Desde já peço desculpa pelo o que te fiz passar, mas está na altura de seguires em frente, sem mim. Eu fui embora porque tinha de o fazer e acho que tu, mais que ninguém, me deves deixar partir. Não tornes as coisas mais complicadas para ambos. Eu estou bem, eu fiquei bem depois daquele dia e eu encontrei ... 

As lágrimas escorriam-me pela cara, como teria ele coragem de me estar a dizer aquilo ? Ele escrevera aquilo por mera culpa ? nem saudades eram dignas ? como sabia ele o que eu passei ?

... alguém e estou feliz com essa pessoa.

O meu coração rachou, começou a chover a potes e as gotas da chuva misturavam-se com as minhas lágrimas salgadas e com a água do mar. Eu sentia que chorava sangue pois era mais que uma ferida aberta que eu não sentia a cicatrizar.

Por mais que te esteja a doer, eu sei que estás feliz por mim assim como eu ficarei feliz por ti se arranjares outro alguém.
Espero que o Tiago esteja a tratar de ti minha pequenina, um grande beijinho.
Joshua Cline

Tirei o casaco e o nevoeiro fazia-se sentir, corri para a água gelada e desta vez com o intuito de ficar lá para sempre, estava a sonhar acordada que respirava debaixo de água e eu tinha 99,9% de certeza que isso nunca iria acontecer, mas eu queria-o tanto !


As ondas prateadas levavam-me para longe e eu sentia-me bem, eu estava a morrer e eu sabia-o por duas razões. Os meus olhos estavam a fechar-se lentamente e a minha vida, desde pequenina, que me passava por entre a mente. Os meus olhos reflectiam memórias. Quando eu era feliz, quando a minha infância era tão alegre e inocente - e nesses momentos eu quis lutar para sobreviver-  e quando me ocorreu a imagem do Joshua eu desisti novamente, fechei os olhos e morri.

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