6.9.13

Perfeito Desconhecido - XX


- RAQUEL ! - Disse juntamente com os seus olhos cintilantes.
- Joshua ? - Perguntei nervosa, caso não fosse seria um pouco embaraçoso.
- Sim. Está tudo bem? Oh meu Deus, tanto tempo. Queres ir tomar um café? - Disse ele esboçando o mesmo sorriso de à nove anos atrás.
- Desculpe, estou atrasada. - Vi o olhar triste patente nos seus olhos. - Sabe que mais? Vamos. Entornei o meu café e com certeza não vou trabalhar sem tomar o meu café matinal.












O Joshua riu-se e dirigimos-nos à escada de saída do Metro. Fomos ao mesmo café e sentamos-nos numa mesa. Tinha aumentado 65% das pessoas naqueles quinze minutos. O céu ainda estava escuro, era demasiado cedo ainda. Os dias estavam cada vez mais pequenos e ainda se via a Lua no céu em quarto Crescente. Chovia torrencialmente e o frio era realmente satisfatório.

- Então, conte-me coisas! - Disse entusiasmada.
- Não me trates por você Raquel, conhecemos-nos à imenso tempo ! - Disse ele franzindo o sobrolho. - Então, estás a trabalhar onde ? És casada ? - E olhou para a minha aliança no dedo da "promessa" da mão esquerda.
- Trabalho em psicologia criminal na Esquadra da Policia ao pé dos Tribunais. Sou casada sim, com o Tiago. Lembraste dele ? Obviamente que não. Que pergunta. - Ri-me envergonhada.
- Se me lembro. Sempre te amou tanto, via-se nos olhos dele quando olhava para ti. - Baixou a cabeça e sorriu. - O meu pai contou-me o que tinha feito no hospital. O que disse ao medico para me dizer por "ti" - Fez aspas com os dedos e olhou-me tristemente.
- O quê ? - Exaltei-me. Não estava a compreender do que estávamos a falar. - E a carta que me enviaste pelo Parque, a dizer que tinhas outra pessoa e que eu devia deixar-te em paz?
- -Nunca enviei nada, nem recebi nada. - Foi ai que tudo fez sentido. O Tiago tinha lido e tinha escrito a carta. Como é que ele pode fazer-me isso?- Ah esse parque, tenho saudades. Cada vez que olho para a cicatriz na minha barriga lembro-me dele... e de nós.
- Bem, não vamos estar a reviver coisas do passado quando o presente é bonito. - Disse com as emoções ainda à flor da pele, tentando esconder isso do Joshua. Ele estava realmente a tornar o ambiente pesado. - Como estás ? Está tudo bem com o teu pai ?
- Nunca mais falei com ele desde ai, eu amava-te como ele amava a minha mãe e não me permitiu ficar contigo porque ele também não ficou com ele. É injusto. Nunca lhe perdoarei. - Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto, sozinha e calma.
- Peguei na mão dele e ambos ficamos envergonhados por isso. - Joshua, não guardes rancor por isso, não te vai fazer bem algum. Perdoa, não estou a dizer para esqueceres, mas para perdoares. Não te tornes como o teu pai, és melhor que ele. - Tentei sorrir com uma certa pena nos lábios.


- É engraçado, a minha mãe dizia que temos sempre o que precisamos, mas não o que queremos. Nunca tinha entendido, mas agora faz sentido. - Um silêncio constrangedor entre nós rapidamente domou a nossa mesa. Só se ouvia o barulho das outras pessoas nas outras mesas. Uns riam, outros choravam, outros eram imunes a qualquer sentimento. As janelas do café estavam ligeiramente embaciadas com o calor do salão e o frio da rua. Era um efeito bonito. Rapidamente me fez lembrar as minhas filhas quando desenhavam nas janelas do carro cinzentas do calor também. Estremeci com um arrepio e olhei para o relógio. - Bem, não te atrases mais. - Levantou-se da cadeira e vestiu a sua bela gabardina. - Mas quero que saibas que ... - interrompi-o.
- Sim... ? - Disse de forma interrogativa.
- Que ... Que gostaria de te ver outra vez. - Disse atrapalhadamente.
- Talvez nos vejamos por ai um dia. - Sorri, levantei-me e coloquei umas moedas em cima da mesa.
- Sempre te amei. - Murmurou ele pelos dentes.

Aproximei-me dele e dei-lhe um ultimo beijo nos seus lábios. Sorri-lhe e fui-me embora sem olhar para trás pois só queria chorar naquele momento. Odiava despedidas. Agora até eu compreendia a frase da mãe do Josh. Eu tinha o que precisava, o Tiago. Mas não tinha o que eu sempre quis, o Joshua. Rapidamente um quarto do meu coração se desfez. Entrei no carro e desisti de ir trabalhar naquele dia.
 A caminho de casa, distrai-me a pensar no Joshua, ouvi uns quantos carros a buzinarem e parei no semáforo encostando o carro na berma na estrada. Do outro lado da rua havia umas quantas lojas fechadas. Lá fora as pessoas pareciam todas apressadas e atarefadas com as suas vidas. Chorei e chorei, e cada vez me sentia mais estúpida por chorar pois não havia razão para isso. Doía-me a barriga, sentia uma náusea tremenda dentro de mim. Voltei a ligar o carro e desliguei a musica que estava a dar na rádio. Demasiado dolorosa a letra da musica. Cheguei a casa e abri a porta e a casa estava totalmente ás escuras. Liguei a luz da sala de Jantar e sentei-me na mesa. Estava chateada e irritada. Rapidamente ouvi o carro do Tiago a chegar e a chave dele a entrar pela fechadura da porta. Enquanto a chave rodava as 3 voltas, limpei as lágrimas e meti um sorriso na cara. Levantei-me e dirigi-me ao Hall principal.

- O que estás a fazer em casa a esta hora amor ? - Gaguejei um pouco pelo facto de ter estado a chorar. Ainda assim sorri falsamente.
- Credo querida, que susto. - Levantou a cabeça e olhou para mim inesperadamente. - O que estás tu a fazer ... ? Amor, estiveste a chorar? Que se passa? - Aproximou-se de mim.
- Não, não estive. Entrou-me uma coisa no olho e fui colocar água amor. - Afastei-me dele. O que estava eu a fazer, era o Tiago pelo amor de Deus.
- Porque te estás a afastar ? - Aproximou-se de mim e abraçou-me com imensa força.- Eu conheço-te amor. O que aconteceu? Não chores.


Quando ele proferiu estas palavras, eu chorei um rio pelos olhos. Ele deu-me um beijo na testa e puxou-me para o sofá para falarmos.

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