30.7.14

Perfeito Desconhecido - I (Para quem quiser começar a ler - O restante que estou a aperfeiçoar encontra-se na página PERFEITO DESCONHECIDO)

Entrou hoje na minha turma um rapaz novo. Não esperava, estamos a meio do 2º período. Joshua Cline é o nome dele. Vem de New York e é bonito. Como a maior parte dos nova-iorquinos. Tem cabelo castanho, porém não muito escuro. Pele branca como a cal das paredes das casas juntas ao mar. Lábios finos e ligeiramente rosados. Olhos verde translúcido, o que na minha visão foi o que mais se realçou.
A Inês, a minha melhor amiga, estava sentada ao meu lado com os seus enormes cabelos pretos estendidos em cima da mesa de madeira quando ele entrou na sala e se apresentou. Ele piscou-me o olho e eu olhei para trás incrédula com o acontecimento. Ele sorriu-me e aí consegui ver com mais precisão a sua boca. Os seus dentes simétricos esbranquiçados realçavam a sua beleza. Com isto tudo consegui aperceber-me do quão convencido e mulherengo ele era.
Quando sai-mos da sala, a Inês começou totalmente aos berros chamando a atenção todos os alunos do nosso corredor. Um por um. Os que estavam em cima dos cacifos pararam o barulho de metal, os que estavam à janela, rapidamente se viraram e os que estavam distraídos focaram a sua mente em mim. Em mim e nas minhas bochechas visivelmente encarnadas.

- Oh meu Deus, eu vi a vossa troca de olhares. Ele é lindo, aproveita! - Gritou mais uma vez mesmo em cima dos meus sensíveis ouvidos.
- Também sou linda, deveria aproveitar-me de mim? É só bonito e provavelmente nem era para mim o piscar de olhos. - Afirmei num tom de voz mais suave.
- Haveria de ser para quem ? Para o Luís que estava atrás de ti ? - Perguntou franzindo o sobrolho.
- Porque não ? não sabes se é gay ? - Tinha de ver todas as hipóteses antes de tirar quaisquer conclusões. Tinha de ser modesta. Não que mudasse necessariamente alguma coisa. Ele tinha olhado para mim e eu sabia disso, mas não me interessava minimamente, não precisava e muito menos eu queria alguém na minha vida. Eu era feliz sozinha, simples assim.
- Oh, por amor de nossa Santa Senhora e Virgem Maria - Revirou os olhos. - Oiço com cada disparates vindos dessa boca. Sinceramente. - Murmurou por entre os dentes. - Vá, hoje à noite vem ter a minha casa, vamos ver um filme. - afirmou a Inês.
- E os teus pais ? Eles deixam ? - Perguntei sabendo da resposta.
- Dahhh porque achas que lhes dei de presente de aniversário, bilhetes para o teatro ? Casados há quase 12 anos, são corajosos - Disse apressando os passos e mandando-me um beijo pelo ar com as suas delicadas mãos.
- Parva, até logo.

Quando cheguei a casa fui direita ao quarto da minha mãe para lhe dizer que ia a casa da Inês, mas quando cheguei, lá estava ela e o meu pai a discutirem como se não houvesse amanhã. Entrei no quarto deles e nem deram pela minha presença. Olhei para as suas caras de raiva e tristeza e sai a correr de casa, bati a porta com tanta força que suponho que tenham reparado.
Cheguei a casa da Inês, toquei à porta e quando ela abriu fomos sentar-nos no sofá dela na sala e ela perguntou-me porque tinha vindo tão cedo, contei-lhe o sucedido.

- Apanhei-os outra vez a discutir. Agora é todo dia a toda a hora. Tornou-se numa insuportável rotina. - Afirmei visivelmente importunada.
- Todos os casamentos têm altos e baixos. Isso há-de passar. - Tentou tranquilizar-me, embora que não tenha visto resultado algum.
- Já não passa, confia em mim. Qualquer coisa é motivo de mais uma das milhares de discussões. Sabes ? Preferia que se divorciassem, ao menos eram felizes. Era muito melhor.
- Eles também têm de pensar em ti e no teu irmão. Só tens 16 anos e o teu irmão tem 11. Já pensaste no teu irmão ? Como iria ele ficar se eles se separassem ? - Perguntou - - Não pensei em como ele iria ficar, pensei em como ele está. Estas discussões também não lhe fazem bem. - Expliquei-lhe.
- Fala com os teus pais sobre o divorcio, é o melhor que tens a fazer. Pronto. Jantas cá então. - Sorriu de orelha a orelha.
- Se não for muito incomodo para a tua mã...
- Raquel já te tinha dito que eras da família, qual incomodo ? - Esclareceu a Ana ao entrar na sala, com o delicioso barulho dos saltos altos.
- ahah mãe, chegaste no momento exacto, ela não entende nunca ahaha.
- Muito obrigada Tia Ana. - Agradeci voluntariamente.

Jantámos e no final ajudamos a arrumar a cozinha.

- Meninas, eu e o João vamos lá ao teatro, beijinhos e portem-se bem. - Era presente na voz de Ana o entusiasmo com que se encontrava.
- Divirtam-se. - Tentei entusiasmar-me também.
- Adeus mãe ! Adeus pai ! olhem aí o marmelanço, no teatro requer-se atenção !
- Jesus. - Suspirei provocadamente.

Fomos para o quarto da Inês, este encontrava-se arrumado como sempre. A tia Ana não suportava confusão e era extremamente organizada. Se a Inês não arrumasse as suas coisas, a própria mãe se encarregava disso. A Inês fez um coque no seu cabelo sublime. Disse-me que tinha descoberto umas coisas sobre o Josh e que achava-o um excelente partido para a minha pessoa, sendo esta uma ideia totalmente ridícula.

- Esta ideia ficou a atormentar-te a cabeça por quantos minutos mesmo? ou será que devo dizer horas? - Provoquei-a e franzi-lhe as sobrancelhas.
- Não ficou nada ! Estou a tentar ajudar-te porca. - Fez beicinho, tentando amuar comigo.
- EU NÃO PRECISO DE NINGUÉM ok ? ok. - Afirmei abrindo-lhe os olhos até aos pés, ou parecido com isso.
- Ok. - Disse a Inês, amuada de novo.
- Ainda bem que percebeste, mudando de assunto... - Fui rapidamente interrompida pelo brilho do sorriso da Inês e a sua persistência em contar-me todos os detalhes.
- Ele é cómico, romântico e descobri que fez uma música lá em New York e adivinha porque veio para cá ? Aventurou-se para fazer um filme ! Ele é famoso, como é que não reparamos logo que era ele. - Exaltou-se e pulou na cama como uma criança pronta para receber um doce.
- Minha Nossa Senhora. Nota-se que percebeste. Eu não quero saber dele, nem de rapaz nenhum. - Suspirei de novo e mais uma vez pensei no Joshua Cline fora de toda a fama possível e existente.
- Ele ser famoso explica o facto de no final das aulas estarem tantas raparigas à sua volta, que giro, só reparei agora. - Agiu como se se tivesse acendido uma pequena lâmpada por cima do seu minúsculo cérebro.
- E eu só reparei agora que tentar chamar-te à razão não leva a lado nenhum. - Disse sem qualquer expressão no rosto. - Mas tu, só assim por acaso, estás a ouvir o que eu te estou a dizer ? - Perguntei incrédula.
- Vocês ficavam bem juntos, esta é a razão, não precisas de me chamar visto que já me encontro ao lado dela. - Sorriu - Oh my God, estou a imaginar-vos. owwwwww, que fofos ! - Fantasiou um pouco e eu deixei-lhe espaço para isso. Ela estava feliz e eu não lhe iria estragar isso.
- Que hei eu de fazer ? Porquê a mim Deus ? Porquê ?... INÊÊÊÊÊÊÊÊS ! - Tinha acabado o momento de magia, exclamando-lhe para que acordasse de tantos miseráveis sonhos.
- Hãn ? disseste alguma coisa ? - Perguntou franzindo o sobrolho.
- Suspirei - Deus me perdoe. - Murmurei por entre os dentes.
- Credo, pareces maluca a falar sozinha meu Deus. Bem, queres ver um filme ? cómico não é ? eu sei. - Levantou-se para ir buscar pipocas.
- E eu é que pareço maluca ? Até parece que não sabes qual é o tipo de filmes que gosto. - Gritei como se o som apenas se propagasse na sua direção.

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